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Hanseníase: dados negativos divulgados pela imprensa são apenas a ponta do iceberg

Presidente do Departamento de Dermatologia da APM, referência nos estudos sobre a doença, afirma que Brasil vive uma endemia oculta há anos

Embora oficialmente o Brasil tenha avançado em praticamente todas as esferas no combate e no tratamento da hanseníase, a situação real seria muito mais grave do que o divulgado pelos jornais na semana passada. Os 24.612 novos casos detectados de hanseníase, apresentados pelo Ministério da Saúde, representariam na verdade apenas uma parcela do que, de fato, é realidade no país.

"Há mais de 15 anos, acredito, os dados não representam a nossa realidade. O que existe no Brasil é uma endemia oculta bastante significativa, pois quando fazemos trabalhos de busca ativa nas comunidades carentes, detectamos um número 80 ou 100 vezes maior do oficial. Temos diversos estudos que comprovam isso", afirma a dermatologista Leontina Conceição Margarido, presidente do Departamento de Dermatologia da Associação Paulista de Medicina e referência nacional no combate, diagnóstico e tratamento da hanseníase.

A incapacidade do Brasil de cumprir com a meta da Organização Mundial da Saúde (OMS), proposta em 2011, de eliminar a doença até o fim de 2015, deve continuar. De acordo com o Morhan (movimento de reintegração de pessoas atingidas pela hanseníase), doenças com menos de um caso para cada 10 mil habitantes já são consideradas patologias em processo de eliminação. Foi o que ocorreu na Índia, país tido como berço da moléstia e que conseguiu baixar a taxa para menos de um doente para cada 10 mil habitantes. Já o Brasil não consegue reduzir seus índices e lidera em número de casos de hanseníase no mundo.

"Este é um dos principais problemas em nosso país. Muitas vezes, lesões incapacitantes são estigmatizadas, além disso, a situação possibilita que ocorra a transmissão da doença, que depende de contato prolongado destes pacientes com outras pessoas", acentua Florisval Meinão, presidente da Associação Paulista de Medicina (APM).

"Mais de 70% dos médicos não fazem diagnóstico precoce. E quando o paciente pertence a classes mais abastadas, logo ouvimos 'imagina se essa pessoa vai ter lepra?'. Isso não é verdade, já que a hanseníase ocorre em todas as classes sociais. São vários os fatores que influenciam no cenário brasileiro da doença", acrescenta a dermatologista.

Pelos números oficiais, divulgados pelo Ministério da Saúde, a hanseníase estive em queda no Brasil desde 2004, ano em que havia 2,8 casos para cada 10 mil pessoas, até 2013, com 1,4. O aumento teria voltado somente no ano passado, com 1,56 para cada 10 mil habitantes. O Ministério diz ainda que a elevação deste percentual se daria principalmente pelo crescimento do total de doentes em tratamento, que passou de 28.485 para 31.568 no período.

"Devemos lembrar que a doença incide principalmente nas camadas sociais de menor poder aquisitivo, justamente onde é mais demorado e custoso o acesso aos serviços de saúde, principalmente aos especialistas. Isso dificulta enormemente o controle da doença", reforça o presidente da APM.

O controle começa na graduação

Leontina Margarido destaca que uma política eficiente no controle da hanseníase, como de outras doenças endêmicas que incidem no Brasil, envolve as escolas de formação profissional na área da saúde. Para ela, não basta apenas ensinar o estudante de medicina a detectar sintomas dessas doenças, mas as demais áreas, como fisioterapia, enfermagem, terapia ocupacional, entre outras. No caso na Odontologia, por exemplo, o doente perde os dentes nos estágios avançados da hanseníase.

"Se os profissionais conseguirem observar sintomas e decifrar o que podem indicar, conseguiremos controlar não só a hanseníase, como outras doenças que atingem nossa população, como tuberculose. Mas o problema é que as grandes endemias brasileiras não são discutidas na graduação na área da saúde. Ou seja, a estrutura eficaz de controle envolve Ministérios da Saúde e da Educação e uma rede capacitada para detectar, tratar e acompanhar os doentes. Corrigindo esses pontos, corrigimos o resto e acabamos com a endemia oculta", explica a presidente do Departamento de Dermatologia da APM.


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