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Educação em crise: mecanização do sistema prejudica a qualidade das universidades brasileiras

É consenso entre os profissionais mais antigos que a qualidade do ensino superior brasileiro está em queda livre. Jornalismo, direito, engenharia, filosofia ou medicina - não importa. O conhecimento teórico e prático aplicado, cuja base outrora tão rica e consagrada, torna-se pífio, raso, limitado e preguiçoso. Tal constatação não é palpite ou ressentimento, mas, sim, análise simples e direta do mercado de trabalho e de dados incontestáveis.

Peguemos dois exemplos contundentes: recente avaliação do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP) reprovou mais da metade dos recém-formados - 55% não acertaram nem 60% da prova, o mínimo esperado. Já o Exame de Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) apresenta índices mais alarmantes: entre 2010 e 2014, apenas 18% de aprovados. Ou seja, o problema passa obrigatoriamente pela sala de aula.

Criado em 2004, o Programa Universidade Para Todos (ProUni) já entregou mais de 2 milhões de bolsas de estudo em universidades privadas para estudantes de baixa renda. Ao lado do Financiamento Estudantil (Fies), é fundamental para garantir acesso à qualificação para jovens que lutam por espaço, a despeito das dificuldades enfrentadas na problemática formação básica. Todavia, essa medida causou, sobretudo, a consolidação de um modelo focado no lucro em detrimento da qualidade.

O objetivo é reduzir custos e abrir o máximo de vagas. Segundo expectativas do Governo Federal, 11,4 mil novas vagas em cursos de medicina serão criadas até 2017. Muitas destas em escolas, sem hospitais de referência e comprometendo o aprendizado. Uma ação sem planejamento só tende a complicar o já grave cenário nacional, uma vez que inviabiliza a comprovação da competência e dificulta a manutenção da fiscalização rigorosa.

O Ministério da Educação (MEC) divulgou, em 2013, uma lista de 270 cursos suspensos por terem, reincidentemente, conceito insatisfatório. Destes, a maioria é de administração, seguido por ciências contáveis, direito e comunicação social. Cinco universidades federais foram citadas, sendo elas do Pará, Rondônia, Espírito Santo, Amapá e Paraná. A educação brasileira é acometida por uma infecção generalizada e atinge nossos principais órgãos.

O principal vetor não é monetário. Falta ética, moral, postura e coordenação. O nível dos trabalhos e o incentivo à pesquisa decaíram, aumentando os casos de plágios - conduta inaceitável e criminal. Além disso, há ocorrências de profissionais que visam apenas sua autopromoção a fim de captar recursos para si, em contraposto à difusão do conhecimento real e conforme. Observo um grande pecado por parte das lideranças das universidades públicas: a não construção de valores. É fundamental ensinar pelo exemplo, agregando os protagonistas da história da instituição. A cultura e ideologia primária devem ser respeitadas, bem como a memória preservada.

Universidades não são paredes, máquinas e aparelhos, são pessoas. Seu sentido universal anseia pela contemplação das dimensões humanas, sobretudo pela disposição de professores e bibliografia de ponta. Porém, mudanças estruturais estão rompendo com este conceito e debruçando às políticas neoliberais, observando a educação como nicho de mercado. É papel de todos impedir essa industrialização do sistema e manter íntegra a nossa essência, pautada na excelência na formação de futuros profissionais. 

 

Antonio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica e diretor da Escola Paulista de Medicina


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